Escatologia

O Milênio - John Walvoord

O Milênio - John Walvoord

Capítulo 1
Milenismo Contemporâneo

O ensino bíblico sobre o milênio é uma parte importante do estudo da profecia. Essa tem sido uma área controversa desde o século III. Nos últimos séculos, ela tem sido estudada de forma especial. Hoje, mais do que nunca, estão sendo levantadas questões sobre o que a Bíblia ensina a respeito de um milênio na Terra. Estamos no milênio agora ou podemos esperar uma era assim no futuro? A resposta a essas perguntas constitui o ônus da investigação que está sendo realizada aqui.

Muitos eventos tiveram um tremendo impacto sobre o pensamento do mundo acadêmico. Na filosofia, houve uma tendência ao realismo e um interesse cada vez maior em valores e ética fundamentais. Na ciência, surgiu o significado moral do conhecimento científico e a crescente percepção de que a ciência física faz parte da vida e do significado do mundo. Na teologia, houve o que equivale a uma revolução semelhante, especialmente no estudo da profecia.

Um dos fatos significativos da teologia do último século[1] é sua ênfase em questões escatológicas ou proféticas. Até mesmo as obras de teólogos liberais discutem com frequência a perspectiva cristã. Millar Burrows, por exemplo, em sua obra, An Outline of Biblical Theology [Um esboço de Teologia Bíblica], apropriadamente dedica um extenso capítulo ao assunto, e determinadas antologias teológicas liberais, como Contemporary Thinking about Jesus [Pensamento contemporâneo sobre Jesus] e Contemporary Religious Thought [Pensamento religioso contemporâneo], de Thomas Kepler, têm seções consideráveis sobre escatologia de escritos de estudiosos teológicos liberais.

Na maioria das vezes, os escritos sobre escatologia entre os liberais se limitam à busca de valores éticos fundamentais, em vez de uma declaração ou subscrição de um programa profético. Ilustrando esse ponto de vista está o volume Jesus and His Coming (Jesus e sua vinda), de J. A. T. Robinson, publicado em 1957, tentando mostrar que as profecias da segunda vinda de Cristo foram de fato cumpridas em conexão com a primeira e que o próprio Jesus nunca predisse uma segunda vinda literal. A visão da Igreja Primitiva, incluindo a expressa por Paulo e pelos apóstolos nas próprias Escrituras, de acordo com a interpretação liberal, é um erro.

Os teólogos neo-ortodoxos não contribuíram significativamente para a escatologia, embora não tenham sido totalmente silenciosos. Eternal Hope [Esperança Eterna], de Emil Brunner, é um exemplo desse tipo de literatura. De modo geral, o assunto da escatologia está sendo reexaminado em todos os ramos da teologia. Ray C. Petry, por exemplo, contribuiu com uma grande obra, de título Christian Eschathology and Social Thought [Escatologia Cristã e Pensamento Social]. John Bright escreveu um volume, que inclusive ganhou prêmios, The Kingdom of God [O Reino de Deus], relacionado ao campo escatológico. H. H. Rowley escreveu The Relevance of the Apocalyptic [A revelância do apocalítico], e Paul A. Minear publicou Christian Hope and the Second Coming [Esperança cristã e a segunda vinda]. Ao lado desses escritos daqueles que não são pré-milenistas e que não concordam com a inspiração das Escrituras, há uma série de obras competentes e acadêmicas escritas por estudantes completos da palavra profética, das quais o volume recente mais abrangente é Things to Come [Coisas que estão por vir], de J. Dwight Pentecost. O século vinte pode muito adequadamente entrar para a história como o século que deu origem à neo-ortodoxia, por um lado, e ao estudo renovado da escatologia, por outro.

I. Definição de milênio

A palavra milênio significa mil anos. Embora ela nunca apareça na Bíblia, podemos dizer que é uma referência aos mil anos mencionados seis vezes no capítulo vinte de Apocalipse. Tanto para judeus quanto para cristãos, esse período de mil anos é frequentemente identificado com as muitas promessas do Antigo Testamento de um reino vindouro de justiça e paz na Terra, no qual os judeus seriam líderes e no qual todas as nações teriam grandes bênçãos, tanto espirituais quanto econômicas. Um estudo do milênio envolve uma compreensão desse grande volume de Escrituras proféticas. Desde o terceiro século, tem havido uma crescente diferença de opinião com relação ao significado prático desse assunto, que se resolveu na questão de se podemos tomar de modo literal todas essas passagens sobre esse reino vindouro. Alguns acreditam que estamos no milênio agora; outros esperam que isso aconteça no futuro, antes da vinda de Cristo; outros ainda esperam que Cristo volte primeiro para que esse reino possa vir. Esses pontos de vista são chamados respectivamente de Amilenismo, Pós-milenismo e Pré-milenismo. É necessário ter esses pontos de vista modernos sobre o milênio em mente com muita clareza, para que se possa entender o significado dos argumentos a favor e contra cada ponto de vista.

Pré-milenismo

Praticamente todos os estudiosos da igreja primitiva concordam que o Pré-milenismo, ou, como também é chamado, Quiliasmo, era o ponto de vista defendido por muitos na era apostólica. É a mais antiga das várias visões a respeito do milênio. Quiliasmo, do grego chilias, que significa mil, é o ensinamento de que Cristo reinará na Terra por mil anos após sua segunda vinda. O termo pré-milenismo deriva seu significado da crença de que a segunda vinda de Cristo será antes desse milênio e, portanto, pré-milenar. Ambos os termos – pré-milenismo e quiliasmo – se referem à mesma doutrina.

Como um sistema doutrinário, o pré-milenismo é necessariamente mais literal em sua interpretação da profecia do que os outros pontos de vista. Ele contempla o fim da era atual como repentino e catastrófico, com grande julgamento sobre os iníquos e o resgate dos justos. É característico do pré-milenismo, tanto antigo quanto moderno, distinguir as relações de Deus com Israel e com a igreja. Como van Oosterzee (1817-1882), um teólogo holandês que era pré-milenista, destaca a distinção do pré-milenismo a respeito da Igreja fundada por Cristo como se a mesma fosse separada dos santos do Antigo Testamento: “É, entretanto, mais exato não fixar a data do início da Igreja Cristã antes do aparecimento do Cristo histórico [...] Desde o derramamento do Espírito no primeiro Pentecostes cristão, a Igreja foi realmente trazida à vida”.[2]

O pré-milenismo geralmente defende o renascimento da nação judaica e a retomada de sua antiga terra quando Cristo retornar. Satanás será preso (Ap 20.2) e haverá um reino teocrático de justiça, paz e tranquilidade. Os justos ressuscitarão dos mortos antes do milênio e participarão de suas bênçãos. Os mortos iníquos não serão ressuscitados até depois do milênio. O estado eterno se seguirá ao julgamento dos iníquos. O Pré-milenismo é obviamente um ponto de vista bastante díspar do Amilenismo ou do Pós-milenismo. Ele tenta encontrar um cumprimento literal para as profecias do Antigo e do Novo Testamento referentes a um reino justo de Deus na Terra. O pré-milenismo pressupõe a autoridade e a precisão das Escrituras e o princípio hermenêutico de uma interpretação literal sempre que possível.

Amilenismo

Essa, a visão moderna mais popular do milênio, é traçada por seus próprios adeptos desde Agostinho e Orígenes (séculos III e IV), e sua ascensão subsequente continuou na Igreja Católica Romana.[3] Seu caráter mais geral é a negação de um reinado literal de Cristo sobre a Terra. Satanás é concebido como preso na primeira vinda de Cristo. A era atual, entre a primeira e a segunda vinda, é o cumprimento do milênio. Seus adeptos estão divididos sobre se o milênio está sendo cumprido agora na Terra (Agostinho) ou se está sendo cumprido pelos santos no céu (Kliefoth). Isso pode ser resumido na ideia de que não haverá mais milênio do que há agora, e que o estado eterno segue imediatamente a segunda vinda de Cristo. Como eles reconhecem livremente que seu conceito de milênio é bastante estranho à visão pré-milenista, a maioria dos escritores lhes dá o título de amilenistas.

Deve-se observar que dois conceitos radicalmente diferentes são adotados nas duas principais divisões do amilenismo. Se o milênio está acontecendo na Terra agora e as profecias do reino estão sendo cumpridas, isso determina o significado de um grande volume das Escrituras e leva a importantes conclusões relativas à era atual. Se o milênio deve ser cumprido somente no céu, em um sentido muito espiritualizado, então essas mesmas profecias não se aplicam a nós, mas apenas aos santos na glória. De fato, há muito pouca unidade ou harmonia entre esses pontos de vista. Os únicos pontos de concordância são que um milênio após a segunda vinda de Cristo é negado, portanto, não acontecerá, e que as profecias sobre o milênio devem ser tomadas a partir de uma perspectiva espiritual e não tomadas literalmente. Além dessa concordância, as principais visões do amilenismo estão em polos opostos.

A maioria dos amilenistas considera a segunda vinda de Cristo um evento futuro distinto, assim como os pré-milenistas. Alguns amilenistas modernos, no entanto, espiritualizam não apenas o milênio, mas também a segunda vinda. Essa visão moderna do retorno do Senhor identifica a vinda de Cristo como um avanço perpétuo de Cristo na igreja que inclui muitos eventos específicos.

William Newton Clarke, por exemplo, sustentou que as promessas da segunda vinda são cumpridas por “sua presença espiritual com seu povo”, que é introduzida pela vinda do Espírito Santo no Pentecostes, acompanhada pela derrubada de Jerusalém e, por fim, cumprida pelo avanço espiritual contínuo na igreja.[4] Em outras palavras, não se trata de um evento, mas inclui todos os eventos da era cristã que são a obra de Cristo. Esse ponto de vista não apenas deixa de prever todos os eventos relacionados à segunda vinda de Cristo, mas elimina completamente o milênio. Essencialmente, é amilenista, embora não seja do tipo histórico. Esse ponto de vista – defendido por muitos liberais de nossos dias – praticamente não contribui em nada para a questão do milênio.

Pós-milenismo

Com origem que remonta aos escritos de Daniel Whitby (1638-1726), um controverso unitarista da Inglaterra, o Pós-milenismo sustenta que a era atual terminará com um período de grande bênção espiritual correspondente às promessas do milênio cumpridas por meio da pregação do evangelho. O mundo inteiro será tornado cristão e submetido ao evangelho antes do retorno de Cristo. O nome é derivado do fato de que, nessa teoria, Cristo retorna após o milênio (portanto, pós-milênio). Existem muitas variações que estão compreendidas neste título geral, e algumas formas de amilenismo são muito semelhantes ao pós-milenismo. Kromminga atribui o Pós-milenismo à Idade Média, citando Joaquim (falecido em 1226) de Fiore, celebrado como intérprete do livro de Apocalipse.[5] Agostinho (354-430) também acreditava na vinda de Cristo após o milênio e, por essa razão, poderia ser classificado como pós-milenista. Sua visão do milênio, no entanto, estava tão distante de um reino literal na Terra que é praticamente uma negação dele, de modo que passa a ser considerado mais eficazmente como sendo um amilenista.

No geral, os limites do pós-milenismo incluem aqueles que são favoráveis a um cumprimento bastante literal das promessas do Antigo Testamento de um reino na Terra de justiça e paz, conforme ilustrado por Charles Hodge, bem como aqueles que estão imbuídos de um espírito geral de otimismo com relação à vitória final do Cristianismo no mundo. Embora alguns dos escritos de Whitby tenham sido queimados publicamente como heresia, especialmente seus pontos de vista sobre a Trindade, muitos teólogos conservadores rapidamente aderiram à, e propagaram, seu ponto de vista sobre o milênio. Hoje em dia, o pós-milenismo não é comumente aceito, e a controvérsia que se segue é principalmente entre o amilenismo e o pré-milenismo.

II. A tendência moderna no sentido do Amilenismo

O declínio do Pós-milenismo

Antes da Primeira Guerra Mundial, a investida combinada da alta crítica e do humanismo moderno havia causado estragos no mundo teológico. Os liberais estavam se superando na corrida e competição para ver quem podia, ou mesmo era capaz, de deixar de crer mais. O pós-milenismo estava em seu auge e as pregações e sermões traziam relatos brilhantes sobre o progresso triunfante do Cristianismo, o reconhecimento da fraternidade universal entre os homens e o poder da igreja nos assuntos mundiais. A Primeira Guerra Mundial interrompeu abruptamente essas tendências. Afinal de contas, o homem não jazia satisfatório ou razoável em si mesmo, como o Humanismo havia defendido, e o dia de uma era de ouro na qual os princípios cristãos deveriam dominar o mundo segundo o padrão pós-milenista parecia indefinidamente adiado. Era hora de fazer um inventário para descobrir quais eram os ativos reais restantes.

Após o choque da Primeira Guerra Mundial, duas tendências se tornaram evidentes. Os liberais iniciaram um movimento de retomada da Bíblia. Uma comparação dos escritos dos teólogos liberais nos vinte anos anteriores à Guerra Mundial e nos vinte anos posteriores a ela deixa isso bem claro.[6] Na escatologia, a tendência de afastamento do pós-milenismo tornou-se quase uma derrota com o advento da Segunda Guerra Mundial. Ficou claro para o mundo teológico acadêmico que qualquer milênio terreno de justiça estava indefinidamente adiado, e havia sérias dúvidas acerca da possibilidade de algum progresso ter sido alcançado.

Douglas Clyde MacIntosh, de Yale, escreveu durante a Segunda Guerra Mundial: “A crise recente não é a primeira na vida da Igreja, mas é, sem dúvida, uma das piores, talvez a pior de toda a história do Protestantismo [...] De modo geral, o Cristianismo Evangélico tem estado em uma maré baixa neste século XX”.[7] Com uma avaliação realista a respeito do declínio da igreja em seu poder e influência, foi relativamente fácil retroceder e se afastar do programa menos ambicioso do amilenismo, que pouco reivindicava em favor do tempo presente e não tentava resolver o curso futuro da história humana.

As linhas da discussão acerca do milênio foram definidas de certa forma como em perspectiva a favor e contra um milênio terreno. Esse parecia ser o significado da tendência dos eventos mundiais. O amilenismo histórico era contra a ideia de um reino literal de Cristo na Terra e todos os sinais pareciam apontar para qualquer ausência de progresso no sentido de tal direção. O terreno em vista era propício para abandonar o otimismo pós-milenista e deixar para os reinos celestiais qualquer sistema idealista de paz e justiça.

O ressurgimento do amilenismo

Nas duas últimas décadas, houve um evidente ressurgimento do amilenismo. Os argumentos vieram de muitas fontes. Aqueles que se tornaram céticos em relação a um milênio na Terra a ser alcançado por meio da influência cristã e da igreja chegaram à conclusão natural de que seu erro estava em levar muito a sério as brilhantes profecias do Antigo Testamento de um reino de justiça e paz na Terra. Não havia sinais de tal dispensação no horizonte, e ambos cristãos e não cristãos falavam sombriamente sobre o fim da civilização e uma terceira e última guerra mundial na qual o homem se destruiria. Parecia, ao menos de acordo com o que indicavam aqueles tempos, que seria possível concluir que não haveria milênio na Terra e que a liberdade do pecado e da guerra só seria encontrada no céu. Embora o curso decadente do mundo moderno não fosse embaraçoso para os pré-milenistas que vinham pregando sobre essa tendência há anos, a igreja como um todo não estava disposta a admitir qualquer argumentação acurada e precisa que fosse de encontro à visão pré-milenista. Em vez disso, a tendência era voltar ao conservadorismo da Reforma, que não tinha a pretensão de ser específico sobre o milênio.

Três correntes principais de teologia convergiram em nossos dias para tornar o amilenismo, sem dúvida, a visão majoritária da igreja. Primeiro, o antigo conservadorismo que abandonou a esperança de Daniel Whitby de um milênio na Terra encontrou refúgio nos credos antigos, que, em sua maioria, não dizem nada sobre o milênio. Sua posição era a de que a verdadeira questão se centrava na fé na Bíblia e na pessoa e obra de Cristo. Por que discutir sobre profecias quando os próprios fundamentos estão ameaçados? Embora esse argumento tenha alguma força, o Cristianismo não sobreviverá com uma lealdade indefinida às Escrituras. A esperança de eventos futuros é inseparável da fé cristã e qualquer imprecisão enfraquece e limita toda a perspectiva.

Uma segunda influência para a materialização do ressurgimento do amilenismo é o crescimento do poder da Igreja Católica Romana. Desde os dias de Agostinho, esse corpo tem sido quase totalmente amilenista. Sua própria estrutura de governo eclesiástico e seu programa de obras dependem do uso das promessas do Antigo Testamento sobre o reino vindouro como cumpridas na igreja. Em uma época em que o liberalismo enfraqueceu o Protestantismo, a sólida influência da tradição e da continuidade da Igreja Romana teve um apelo profundo. Nada poderia ser mais antitético do que a Igreja Romana e o pré-milenismo, e sua influência é definitivamente amilenista.

Uma terceira influência no poder atual do amilenismo é encontrada na teologia protestante liberal. Com visões limitadas a respeito da inspiração das Escrituras e sem nenhuma preocupação com uma interpretação consistente das Escrituras, a tendência ao ceticismo na escatologia está marcada. Se o pós-milenismo não pode mais ser mantido, por que não ser cético em relação a qualquer milênio? Sem se valer de argumentos históricos, exceto quando conveniente para seus respectivos e próprios propósitos, os liberais se uniram quase que de modo uníssono em sua denúncia ao pré-milenismo e à doutrina de um reinado terreno de Cristo.

A tendência no sentido do Amilenismo na Teologia Liberal

Na tendência teológica liberal no sentido do amilenismo, há um elemento que não foi avaliado adequadamente nos argumentos atuais sobre a questão milenar. É evidente que o pré-milenismo constitui um grande segmento do Cristianismo conservador de nossos dias. Os teólogos liberais logo descobriram que atacar o pré-milenismo era um artifício muito eficaz para combater o antigo conservadorismo na teologia. Qualquer ataque ou descrédito ao pré-milenismo beneficiava a Teologia Liberal sem expô-la a perguntas embaraçosas sobre sua própria crença nas Escrituras. Os pré-milenistas podiam ser atacados impunemente. Os liberais que faziam isso podiam se apresentar como defensores da fé reformada, como aqueles que buscavam a pureza e a unidade da igreja, os que queriam recuperar e salvar a Bíblia de uma forma de interpretação falsa e enganosa. Os liberais que não podiam ser examinados em nenhum aspecto essencial da teologia cristã conservadora eram encontrados no estranho papel de defensores da Teologia Reformada porque denunciavam o Pré-milenismo. Sem dúvida, alguns deles foram sinceros em seu erro, mas seu zelo traiu a motivação oculta e, às vezes, inconsciente.

Ataques crescentes ao pré-milenismo

Na última década, outra tendência de explorar esse argumento apareceu na tentativa de dividir os pré-milenistas entre a antiga escola de interpretação, que muitas vezes lutava contra uma teologia que era pré-milenista apenas em sua escatologia, e o tipo mais recente que faz do pré-milenismo um sistema de teologia. Reconhecendo que o pré-milenismo era antigo e, nessa medida, honrado, eles denunciaram o que chamaram de dispensacionalismo como um erro novo e moderno.[8] Os estudiosos que não tinham interesse algum no pré-milenismo escreveram sobre pontos delicados de disputa entre os pré-milenistas, como se a existência de problemas e discordâncias não resolvidos provasse, sem sombra de dúvida, que os princípios nos quais a interpretação se baseava estavam irremediavelmente envolvidos. Os acadêmicos conservadores foram influenciados a aceitar o desejo dos liberais de dividir a força remanescente da teologia conservadora.

Um dos aspectos curiosos da literatura atual sobre a questão do milênio é a escolha da Bíblia de Referência Scofield para ser atacada. Essa edição da Bíblia, que teve uma circulação sem precedentes, popularizou os ensinamentos pré-milenistas e forneceu ajuda e recursos de modo imediato para a questão da interpretação. Provavelmente, ela fez mais para propagar o pré-milenismo no último meio século do que qualquer outro volume. Isso explica as muitas tentativas de desacreditar essa obra. O recente livro de Oswald T. Allis, Prophecy and the Church (Profecia e a Igreja), resultado de um estudo de uma vida inteira e de um ano específico de pesquisa, direciona a maior parte de seu ataque para refutar a Bíblia Scofield. Millennial Studies, de George L. Murray, publicado em 1948, resultado de doze anos de estudo sobre o problema do milênio, menciona a Bíblia de Scofield mais do que qualquer outra obra. A refutação da Bíblia Scofield é curiosa porque cada escritor que a sucede aparentemente acredita que seus predecessores não conseguiram eliminar essa obra de uma vez por todas. Essa crença aparentemente tem fundamento, pois a Bíblia de Scofield continua a ser publicada ano após ano em maior número do que qualquer um de seus refutadores.

O atual debate sobre o milênio é singular por sua qualidade negativa. Embora o pré-milenismo tenha sido mal administrado por muitos de seus próprios adeptos, tal caminho ao menos teve o objetivo de ser construtivo, oferecendo um sistema definido de interpretação e uma voz positiva. Embora o amilenismo tenha atraído muitos estudiosos e produzido muitos trabalhos sobre a questão do milênio nas últimas duas décadas, a maior parte de sua abordagem tem sido de ridicularização e ataque ao pré-milenismo, em vez de uma apresentação ordenada de seu próprio sistema de crenças. Essa direção dos estudos publicados nasceu da natureza da teoria amilenista – uma negação do milênio. Os amilenistas também argumentaram corretamente que, se conseguissem eliminar seus oponentes que eram pré-milenistas, eles não teriam nenhuma oposição efetiva ao seu próprio ponto de vista. A atitude negativa também era uma necessidade, por assim dizer, pois os amilenistas não concordam de forma alguma com os aspectos essenciais de seu próprio sistema de escatologia e percepções acerca do milênio.

Um dos aspectos mais complicados e prejudiciais da tendência ao Amilenismo é o desespero evidenciado na natureza de suas tentativas de desacreditar outros pontos de vista. Em particular, em sua refutação do pré-milenismo, cada atrocidade que foi defendida por qualquer pré-milenista é tomada como se fosse uma defesa típica do movimento. Até mesmo estudiosos de renome, como Allis e Kromminga, são culpados em várias instâncias de argumentos ad hominem flagrantes. Seu propósito óbvio é provar que o pré-milenismo dispensacionalista tem uma tendência à heresia em todos os campos da teologia. Kromminga, embora seja um pré-milenista, em sua primeira referência à Bíblia de Scofield, tenta provar que Scofield era culpado de “aberração herética” no que concerne à doutrina da Trindade. Sua prova para isso é uma referência um tanto obscura a Israel como a esposa de Jeová e a igreja como a esposa de Cristo.[9]

Allis tenta vincular o pré-milenismo ao Russellismo (Testemunhas de Jeová) porque ambos acreditam que a aliança abraâmica é incondicional.[10] Novamente, Allis, ao discutir a oferta do reino por Cristo, afirma que a questão é que, se Cristo ofereceu aos judeus um reino milenar, ele estava dizendo que a cruz era desnecessária. Ele diz que o argumento “se resume a isto: os homens poderiam ter sido salvos sem a cruz?”[11] Como Allis seria o primeiro a admitir, nenhum grupo de milenistas tem sido mais fiel em pregar a necessidade da cruz do que os pré-milenistas, e dizer que a visão deles requer declarar a cruz desnecessária é uma conclusão à qual nenhum pré-milenista chegaria. Allis se esqueceu de que ele é um calvinista e que Deus pode fazer uma oferta de boa-fé de algo que, em sua soberania e presciência, sabe que não vai e não pode acontecer – um princípio que tem muitas ilustrações na Bíblia, como, por exemplo, o trato de Deus com Moisés (Êx 32.9-14; Nm 14.11-20). Essa tendência infeliz de levantar falsas questões com o intuito de atacar o pré-milenismo apenas confunde, de alguma maneira, a tratativa da própria questão, e cria cisões e partidarismos entre aqueles que deveriam estar em verdadeira comunhão cristã, ainda que venham a diferir em aspectos relacionados à doutrina do milênio. Embora tenha faltado objetividade em todos os pontos de vista sobre o milênio, a nível acadêmico, o amilenismo provavelmente foi o que mais pecou.

Ainda que não esteja diretamente relacionada à literatura milenista, tem havido uma tendência atual significativa nas instituições de ensino nos Estados Unidos em relação à doutrina do milênio. Nas instituições teológicas, o ponto de vista comum é o do amilenismo. A mudança mais notável ocorreu nos seminários liberais, que eram predominantemente pós-milenistas antes da Primeira Guerra Mundial. Embora ainda se fale muito em um “mundo melhor” e em “trazer o Reino”, isso está bastante distanciado das discussões milenistas. A maioria dos seminários teológicos vê o milênio como uma área de estudo infrutífera e tende a suspender o julgamento sobre qualquer exegese detalhada das passagens bíblicas relacionadas à esse tópico.

Uma exceção significativa e um contraste com a tendência ao amilenismo é encontrada nos institutos bíblicos, que são definitivamente mais bíblicos em seu currículo do que a maioria dos seminários teológicos. O movimento dos institutos bíblicos nos Estados Unidos não só tem sido predominantemente pré-milenista desde o início, como também não tem havido uma tendência perceptível de afastamento dessa posição. A maneira como o pré-milenismo é defendido pelos institutos bíblicos também é significativa. O ponto de vista é em parte inconsciente, ou seja, seu currículo não foi projetado para propagar o pré-milenismo em si. A aceitação do pré-milenismo é mais como um meio de interpretar a Bíblia inteira e familiarizar os alunos com uma forma consistente de interpretação. Os milhares de graduados de institutos que estão sendo enviados a cada ano constituem um dos pontos positivos do pré-milenismo na tendência atual. Em um nível popular, os institutos bíblicos ou organizações relacionadas publicam larga quantidade de literatura que segue a interpretação pré-milenista das Escrituras.

Tomada como um todo, a tendência atual da literatura milenista indica um ataque crescente aos pré-milenistas por parte daqueles que defendem a posição amilenista, um abandono do pós-milenismo como obsoleto, e um uso crescente significativo da questão do milênio por parte dos liberais para dividirem e conquistarem os que permanecem nos círculos teológicos conservadores. As qualidades dos respectivos argumentos permanecem, visando um estudo detalhado do mérito.

III. A importância da doutrina do milênio

Foi levantada a questão de se a discussão da doutrina do milênio é, em si mesma, importante e digna de consideração e análise por parte do mundo acadêmico. Ainda hoje há uma tendência de descartar todo o assunto como pertencente a outra época e como sendo estranho aos estudos intelectuais de nossos dias. D. C. MacIntosh se refere ao pré-milenismo como obsoleto: “toda a ideia obsoleta de um retorno literal e visível de Jesus a esta Terra”.[12] Por outro lado, a produção contínua de livros sobre o assunto aponta para uma percepção crescente de que a questão é mais importante do que parece à primeira vista. Se o pré-milenismo for apenas uma disputa sobre o que acontecerá em uma era futura que está bem distante das questões atuais, isso é uma coisa. Se, no entanto, o pré-milenismo for um sistema de interpretação que envolve o significado e a importância de toda a Bíblia, define o significado e o curso da era atual, determina o propósito atual de Deus e fornece material e método para a teologia, isso é outra coisa. Foi a crescente percepção de que o pré-milenismo é mais do que uma disputa sobre o Apocalipse 20 que desencadeou os argumentos extensos sobre a questão em nossos dias. Pela primeira vez, parece ser comumente reconhecido que a teologia pré-milenista se tornou um sistema de teologia, não uma visão alternativa da escatologia que não tem relação com a teologia como um todo.

Já foi observado que o pré-milenismo é um obstáculo obstinado à teologia liberal, além de ser totalmente oposto aos princípios que regem a Teologia Católica Romana. A razão para isso é que o pré-milenismo usa uma interpretação literal da Palavra profética, que é a espinha dorsal do estudo abrangente da Bíblia. O pré-milenismo não só considera a Bíblia como autoritativa e imbuída de autoridade em oposição ao liberalismo, mas também acredita que um crente comum pode entender a importância principal das Escrituras, incluindo a Palavra profética. Isso é contrário à concepção romana. O atual movimento de estudo da Bíblia neste país, conforme ilustrado nas conferências bíblicas e proféticas e nos institutos bíblicos, é quase inteiramente pré-milenista em sua origem. De fato, é considerado uma acusação comum contra os pré-milenistas que eles são culpados de bibliolatria ou adoração da Bíblia. A oposição ao pré-milenismo, especialmente por parte dos liberais, é em grande parte contra o fato de considerar a Bíblia como a única autoridade final, ou seja, regra única de fé e prática. MacIntosh afirma categoricamente que “a explicação” para “a tão esperada e teoricamente aguardada segunda vinda de Cristo (...) encontra-se na doutrina da inspiração milagrosa e consequente infalibilidade literal da Bíblia”.[13] Para ele, isso é “incrível”.[14] É inevitável que a defesa do pré-milenismo se torne uma defesa da própria Bíblia e de sua autoridade única ao tratar de eventos futuros e programas de Deus.

A doutrina milenista também determina grandes áreas de interpretação bíblica que não são em si mesmas de caráter profético. As distinções nos procedimentos dispensacionalistas de Deus, os contrastes entre o período mosaico, as promessas abraâmicas, a atual era da graça e as profecias não cumpridas sobre o reino vindouro são de grande importância na interpretação bíblica e na teologia sistemática. Muitas dessas questões são amplamente determinadas pela doutrina do milênio. Estão envolvidas distinções em particular que dizem respeito ao caráter da era atual em seu propósito e programa. Se o propósito atual de Deus é trazer um milênio por meio da influência e pregação cristãs, isso é uma coisa; se não há milênio algum, isso é outra; se o milênio ainda está para ser cumprido na Terra por meio da segunda vinda de Cristo, isso é ainda outra. A concepção da era atual é, portanto, vitalmente afetada pela doutrina do milênio. Não é exagero dizer que o milenarismo é um fator determinante na interpretação bíblica de importância comparável às doutrinas da inspiração verbal, da divindade de Cristo, da expiação substitutiva e da ressurreição corporal. Essas doutrinas são defendidas tanto por pré-milenistas quanto por amilenistas conservadores. É claro que para um indivíduo a negação da divindade de Cristo é mais importante e de maior alcance do que a negação do pré-milenismo, mas, no que diz respeito a um sistema de interpretação, ambas são vitais. O crescente reconhecimento da importância da doutrina do milênio é uma das principais causas do ressurgimento do interesse nesse campo.

IV. Conclusão

O ponto de vista moderno sobre o milênio apresenta um desafio teológico distinto. Com o declínio do pós-milenismo, as linhas são traçadas entre o pré-milenismo e o amilenismo. A questão é se haverá um reinado literal de Cristo na Terra após sua segunda vinda, como acreditam os pré-milenistas, ou se as profecias do milênio estão sendo cumpridas agora, como defendem os amilenistas. É para essa última questão que a discussão será direcionada. A igreja na terra na era presente está no reino milenar do qual as Escrituras falam? Agostinho está essencialmente certo de que o atual período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo cumprirá todas as promessas milenares? Estão certos os amilenistas mais modernos que rejeitam a tese agostiniana e remetem essas figuras milenares ao próprio céu? O amilenismo tem a resposta para a questão do milênio? As respostas a essas e outras perguntas relacionadas serão o objeto deste estudo.


NOTAS

[1] O escritor escrevia em 1959 [N.E.].
[2] Jan Jacob Van Oosterzee, Christian Dogmatics (New York: Charles Scribner’s Sons), II, 701.
[3] Conferir o resumo de Oswald T. Allis sobre Amilenismo, em Prophecy and the Church, pp. 2-6 (Philadelphia: The Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1945). O subtítulo de seu livro é “An examination of the claim of dispensationalists that the Christian Church is a mystery parenthesis which interrupts the fulfillment to Israel of the kingdom prophecies of the Old Testament”.
[4] William N. Clarke, An Outline of Christian Theology, 5ed., pp. 443-46.
[5] D. H. Kromminga, Millennium in the Church (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1945), p. 20.
[6] Um livro como An Outline of Biblical Theology, do acadêmico liberal Millar Burrows, da Universidade de Yale, que contém cerca de 10.000 citações das escrituras, jamais teria visto a luz do dia, ou seja, publicado, sob o jugo do liberalismo de 30 anos atrás.
[7] Douglas C. MacIntosh, Personal Religion (New York: Charles Scribner’s Sons, 1942), pp. 232, 234.
[8] Cf. Allis, op. cit.
[9] Kromminga, op. cit., pp. 23-24.
[10] Allis, op. cit., p. 48.
[11] Ibid., p. 75.
[12] MacIntosh, op. cit., p. 203.
[13] Ibid., pp. 192-93.
[14] Ibid., p. 193.

Assuntos: DESTAQUE
Comentários (1)

Kassy Jony De Oliveira 16/01/2024

Quero ver

Deixe seu comentário

Comentário

Nome

E-mail

Quanto é ?